o dia que me tornei mãe

o dia que me tornei mãe
fechei os olhos e de coração apertado vi uma criança bem gordinha e de olhos azuis vindo em minha direção
sorridente, correndo, tropeçando, afobada por colo; o meu
abracei-a como se eu mesma tivesse gerado de dentro do meu ventre e a beijei como se cada pedacinho dela fosse eu quem tivesse feito
ela então me olhou e com suas mãozinhas afagou meu rosto
era como se o mundo parasse naquele momento e só nós duas existíssimos
o dia que me tornei mãe
eu cai
chorei um rio de impotência que desembocou nas margens da paralisação
a depressão me pegou em cheio e não soube por algum tempo de que modo agir
a criança que antes sorria, era só tristeza e gritos
-impulso de quem está carente de afago, sabe?-
então, procurei a arte e ela me preencheu aos poucos, foi difícil e aos poucos foi me salvando de mim mesma
o colorido foi voltando, o silencio foi se calando... dando espaço para o cuidado: comigo e com ela.
o dia que me tornei mãe
eu não virei santa, muito menos deixei de errar
eu me tornei feminista
o dia que me tornei mãe
o patriarcado perdeu uma mulher
por mais que ele me dissesse para fazer tudo sozinha, porque mãe boa é assim e assim deve ser, abdicar das coisas, porque isso é expressar amor.
eu resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
porque comecei a entender que o papel da mulher não é criar sozinha a criança, até porque ela tem pai, tem avós, tem irmãos, tem tios.. e quando todos participam desse processo são mais pessoas revindicando por políticas para problemas que conhecem na prática.
resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
e vi que meu papel profissional não tem relação com a quantidade de filhos que eu tenha
resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
para poder entrar num transporte público e minha criança estar segura, sentada em bancos amarelos ou acentos cedidos gentilmente, e assim poder sair de casa como qualquer pessoa
resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
pelo fato de estar tranquila na sociedade ao qual faço parte e contribuo, e não receber olhares ou frases grosseiras de pessoas que não sabem como é estar nesse papel
resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
para continuar vendo a inúmeras vezes, repetidas, de idas ao banco para cancelar cartões, porque sempre são perdidos e mesmo assim ser recebida cordialmente
resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
e começar a ter uma visão mais otimista e vender sabonetes para os amigos, porque as compras repetidas tmb e idas ao mercado fazem parte de uma certa confusão mental por conta da idade que merece maior cuidado
por fim resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
porque não da mais para a gente fazer esse papel de só esperar da sociedade desleixo, desatenção e despreparo, como se fosse algo aceitável, a uma pessoa que deu seu suor, seu sangue, dias de trabalhos e investimento social por anos e hoje encontra-se excluída da mesma com seus 66 anos...
resolvi desromantizar o dia que me tornei mãe
porque ser feminista é não romantizar o papel que me encontro ao cuidar da minha mãe aposentada, com transtorno de ansiedade generalizada, com lapsos de esquecimentos e comprometimento na área cognitiva.
a minha criança de olhos azuis, hoje, sorridente continua correndo, tropeçando, afobada por colo; o nosso.

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